quarta-feira, 24 de abril de 2019

Não Tiranizes



“E, com muitas parábolas semelhantes, lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender.” (Marcos, 4:33.)

Na difusão dos ensinamentos evangélicos, de quando em quando encontramos pregadores rigorosos e exigentes.

Semelhante anomalia não se verifica apenas no quadro geral do serviço. Na esfera particular, não raro, surgem amigos severos e fervorosos que reclamam desesperadamente a sintonia dos afeiçoados com os princípios religiosos que abraçaram.

Discussões acerbas se levantam, tocando a azedia venenosa.

Belas expressões afetivas são abaladas nos fundamentos, por ofensas indébitas.

Contudo, se o discípulo permanece realmente possuído pelo propósito de união com o Mestre, tal atitude é fácil de corrigir.

O Senhor somente ensinava aos que o ouviam, “segundo o que podiam compreender”.

Aos apóstolos conferiu instruções de elevado valor simbológico, enquanto que à multidão transmitiu verdades fundamentais, através de contos simples. A conversação dEle diferia, de conformidade com as necessidades espirituais daqueles que o rodeavam. Jamais violentou a posição natural de ninguém.

Se estás em serviço do Senhor, considera os imperativos da iluminação, porque o mundo precisa de servidores cristãos e não, de tiranos doutrinários.
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EMMANUEL
(do livro “Pão Nosso” – psic. Chico Xavier)






MENSAGEM DO ESE:

Há muitas moradas na casa de meu Pai

Não se turbe o vosso coração. — Credes em Deus, crede também em mim. Há muitas moradas na casa de meu Pai; se assim não fosse, já eu vo-lo teria dito, pois me vou para vos preparar o lugar. — Depois que me tenha ido e que vos houver preparado o lugar, voltarei e vos retirarei para mim, a fim de que onde eu estiver, também vós aí estejais. (S. JOÃO, cap. XIV, vv. 1 a 3.)

A casa do Pai é o Universo. As diferentes moradas são os mundos que circulam no espaço infinito e oferecem, aos Espíritos que neles encarnam, moradas correspondentes ao adiantamento dos mesmos Espíritos.

Independente da diversidade dos mundos, essas palavras de Jesus também podem referir-se ao estado venturoso ou desgraçado do Espírito na erraticidade. Conforme se ache este mais ou menos depurado e desprendido dos laços materiais, variarão ao infinito o meio em que ele se encontre, o aspecto das coisas, as sensações que experimente, as percepções que tenha. Enquanto uns não se podem afastar da esfera onde viveram, outros se elevam e percorrem o espaço e os mundos; enquanto alguns Espíritos culpados erram nas trevas, os bem-aventurados gozam de resplendente claridade e do espetáculo sublime do Infinito; finalmente, enquanto o mau, atormentado de remorsos e pesares, muitas vezes insulado, sem consolação, separado dos que constituíam objeto de suas afeições, pena sob o guante dos sofrimentos morais, o justo, em convívio com aqueles a quem ama, frui as delícias de uma felicidade indizível. Também nisso, portanto, há muitas moradas, embora não circunscritas, nem localizadas.

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(Fonte: O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. III, itens 1 e 2.)



terça-feira, 23 de abril de 2019

O CARMA DE QUEM MALTRATA OS ANIMAIS O GATINHO CEGO



Contou-nos o Sr. Weaker Batista, então presidente do Grupo Espírita da Prece, com quem sempre conversávamos, que Chico [Xavier], dias atrás, estava muito aborrecido. E explicou:


— Apareceu um gatinho cego lá no portão da casa dele... D. Enoé o recolheu e chamou o Chico. O gatinho, muito magro, estava com os dois olhos inflamados! Raras vezes vi o Chico tão bravo e indignado... 


Ele falava, segurando o gatinho no colo:


– “Isto é muita maldade... Quem faria isto com um animal tão indefeso como este? Vejam, Weaker e Zilda [Batista], os olhos dele foram furados com prego... Coitado! Nunca mais poderá enxergar... Quem terá cometido uma barbaridade dessas? Menino, não foi... Isto é coisa de adolescente quase adulto! O que se pode esperar de uma pessoa assim, vivendo no mundo? Meu Deus!...” 


E passava a pomada Vovô Pedro nos olhos do gatinho, que estava sem forças até para miar... Colocava leite com uma seringa na boca dele... Mandou chamar o veterinário. O gatinho terminou morrendo. 


Eu percebia que o Chico estava fazendo força para que a indignação dele não fosse lançada contra quem tinha feito aquilo... 


O gato, que era pouco mais que um filhote, morreu depois de uns 3, 4 dias. O Chico largou quase tudo para cuidar do gato... Arranjou uma caixa de papelão, que forrou com cobertor e jornal, e ficava toda hora indo olhar como ele estava. Quando o gatinho morreu, o Chico não trocou uma palavra com a gente – ficou o dia inteiro aborrecido. 


Só no outro dia, na hora do serviço com a correspondência, ele veio conversar. Ainda estava bravo e falou: 


– “O homem acha que ele arranja carma só com o que faz de mal a outro homem... Uma barbaridade daquelas não fica impune, não! As Leis de Deus cobram tudo...”

Livro: Chico Xavier, o Amigo dos Animais
Carlos A. Baccelli
LEEPP – Livraria Espírita Edições Pedro e Paulo




MENSAGEM DO ESE:

Deixai que venham a mim as criancinhas (II)

Deixai venham a mim as criancinhas, pois tenho o leite que fortalece os fracos. Deixai venham a mim todos os que, tímidos e débeis, necessitam de amparo e consolação. Deixai venham a mim os ignorantes, para que eu os esclareça. Deixai venham a mim todos os que sofrem, a multidão dos aflitos e dos infortunados: eu lhes ensinarei o grande remédio que suaviza os males da vida e lhes revelarei o segredo da cura de suas feridas! Qual é, meus amigos, esse bálsamo soberano, que possui tão grande virtude, que se aplica a todas as chagas do coração e as cicatriza? E o amor, é a caridade! 

Se possuís esse fogo divino, que é o que podereis temer? Direis a todos os instantes de vossa vida: 

“Meu Pai, que a tua vontade se faça e não a minha; se te apraz experimentar-me pela dor e pelas tribulações, bendito sejas, porquanto é para meu bem, eu o sei, que a tua mão sobre mim se abate. Se é do teu agrado, Senhor, ter piedade da tua criatura fraca, dar-lhe ao coração as alegrias sãs, bendito sejas ainda. Mas, faze que o amor divino não lhe fique amodorrado na alma, que incessantemente faça subir aos teus pés o testemunho do seu reconhecimento!” 

Se tendes amor, possuís tudo o que há de desejável na Terra, possuís preciosíssima pérola, que nem os acontecimentos, nem as maldades dos que vos odeiem e persigam poderão arrebatar. Se tendes amor, tereis colocado o vosso tesouro lá onde os vermes e a ferrugem não o podem atacar e vereis apagar-se da vossa alma tudo o que seja capaz de lhe conspurcar a pureza; sentireis diminuir dia a dia o peso da matéria e, qual pássaro que adeja nos ares e já não se lembra da Terra, subireis continuamente, subireis sempre, até que vossa alma, inebriada, se farte do seu elemento de vida no seio do Senhor. 

— Um Espírito protetor. (Bordéus, 1861.)

(Fonte: O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VIII, item 19.)


sábado, 20 de abril de 2019

Necessidade de Tolerância


Muitos fazem da tolerância um feito difícil.

Tolerância é respeito pela vida, conforme ela é.

Mais do que um favor em relação ao próximo em erro, é um dever mínimo, imediato, de que não podemos prescindir para viver em paz conosco.

É estado emocional que deve incorporar-se à conduta pessoal, para formar hábito sadio.

Todas as ocorrências no mundo resultam de fatores que nos cumpre compreender e aceitar.

Aceitação não equivale a concordância, mas a dever de respeito, ditado pela consciência, ante os que pensam e agem de forma diferente.

Tolerância tem muito a ver com a paz interior, que cada um deve cultivar com afinco.

Cônscio de suas responsabilidades, o homem, mais facilmente compreende os que transitam em outras faixas de aprendizagem:

- Não inveja os que se acham acima;

- Tolera os que, abaixo, se fazem agressivos.

A tolerância gera simpatia e fomenta a paz.

Não confundamos tolerância e covardia moral.

Uma dignifica, a outra envilece.

A tolerância exalta, a covardia deprime.
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Marcelo Ribeiro

















 


MENSAGEM DO ESE:

A melancolia

Sabeis por que, às vezes, uma vaga tristeza se apodera dos vossos corações e vos leva a considerar amarga a vida? É que vosso Espírito, aspirando à felicidade e à liberdade, se esgota, jungido ao corpo que lhe serve de prisão, em vãos esforços para sair dele. Reconhecendo inúteis esses esforços, cai no desânimo e, como o corpo lhe sofre a influência, toma-vos a lassidão, o abatimento, uma espécie de apatia, e vos julgais infelizes.

Crede-me, resisti com energia a essas impressões que vos enfraquecem a vontade. São inatas no espírito de todos os homens as aspirações por uma vida melhor; mas, não as busqueis neste mundo e, agora, quando Deus vos envia os Espíritos que lhe pertencem, para vos instruírem acerca da felicidade que Ele vos reserva, aguardai pacientemente o anjo da libertação, para vos ajudar a romper os liames que vos mantêm cativo o Espírito. Lembrai-vos de que, durante o vosso degredo na Terra, tendes de desempenhar uma missão de que não suspeitais, quer dedicando-vos à vossa família, quer cumprindo as diversas obrigações que Deus vos confiou.

Se, no curso desse degredo-provação, exonerando-vos dos vossos encargos, sobre vós desabarem os cuidados, as inquietações e tribulações, sede fortes e corajosos para os suportar. Afrontai-os resolutos. Duram pouco e vos conduzirão à companhia dos amigos por quem chorais e que, jubilosos por ver-vos de novo entre eles, vos estenderão os braços, a fim de guiar-vos a uma região inacessível às aflições da Terra.

 — François de Genève. (Bordéus.)

(Fonte: O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V, item 25.)


sexta-feira, 19 de abril de 2019

Reflexões Sobre a Paixão

Nestes dias atuais em que o cristianismo organizado comemora a semana santa, e mais especificamente a sexta feira da paixão, faz-se necessário à luz da nova interpretação que o espiritismo propõe do Evangelho fazermos algumas reflexões sobre o significado desta data.

Desde sempre aprendemos que estes eram dias de grande tristeza, pois lembrávamos do sacrifício de Nosso Senhor em favor de toda humanidade. Era comum particularmente na sexta feira não podermos praticamente nada fazer. Não podíamos escutar música, trabalhar, divertir, nem mesmo viajar.

Lembro-me que em certa ocasião uma família amiga foi fazer uma viagem neste dia, e na viagem ocorreu um acidente com vítimas. Não foram poucos os que comentaram ter havido um castigo dos céus, “veja se isto é data para viajar a passeio?” eram os comentários naturais.

Hoje não compreendo o porquê de tal comportamento. Mesmo dentro da ótica do cristianismo oficial não dá para compreender.

Se Jesus veio ao mundo para nos salvar, e a crucificação foi o ponto sublime desta salvação, como dizem, e que com este ato ele libertou toda humanidade do pecado, então, por que tristeza nestas comemorações? Não seria um ato digno de alegria de nossa parte? Foi com a morte que ele salvou segundo dizem, e não com a ressurreição. A ressurreição é apenas a confirmação desta realidade.

Porém, façamos uma nova interpretação.

Mesmo nos meios espíritas a paixão é tida como uma vitória das trevas sobre a luz, porém se analisarmos melhor vamos perceber que é justamente o oposto.

A treva foi iludida como sempre, e onde viu uma vitória sofreu uma enorme derrota.

É que os adversários do Bem têm no interesse pessoal, na vaidade, no orgulho, entre outros, instrumentos de escravidão dos Espíritos invigilantes.

Jesus veio até nós com o objetivo de educar-nos para a vida verdadeira, não foi por outro motivo que o título de Mestre ele aceitou.

Para mostrar-nos que o exemplo é o melhor instrumento de didática, veio ele mesmo para o testemunho, poderia mandar outros entre aqueles que também estivessem bem adiantados em evolução, todavia veio ele mesmo para ratificar o que dissemos sobre a importância do exemplo, do testemunho pessoal.

Como tratava de uma missão sublime, de um trabalho a ser elaborado pelo homem espiritual em detrimento do homem biológico este não a compreendeu, e não compreenderá enquanto não mudar o paradigma de sua compreensão.

Assim fez-se comum chorar pelo Cristo, quando ele mesmo alertou-nos:

…não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas, e por vossos filhos.[1]

Talvez o nosso choro seja o da consciência culpada, não pelo ato de há dois mil anos, mas por continuar crucificando-o nestes dois milênios posteriores mesmo após nos considerarmos cristãos.

A lição da paixão é uma só, a da necessidade do testemunho pessoal, Ele mesmo já havia antecipado:

Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me.[2]

O que deve ser crucificado em nossa “sexta feira da paixão” é o homem velho, o interesse pessoal, nossos valores que só dizem respeito ao homem biológico.

E tendo a consciência que hoje temos após o Advento do Espírito de Verdade, não será este dia um motivo de grande alegria, não será isto o que devemos celebrar?

Faz-se neste ponto necessário aprofundarmos um pouco mais a análise.

É muito bonito e cheio de espiritualidade falarmos em sacrifício dos interesses pessoais, em alijar de nossa onda mental os resquícios do homem velho, todavia, raríssimos entre nós têm realmente atitudes de assim fazer.

Isto se dá porque não há outra forma de realizarmos tal empreitada senão através do testemunho vivo e pessoal conforme já dissemos, e isto é duro e difícil de fazer, pois significa entre outras dificuldades, momentos de muita solidão pela incompreensão de todos, principalmente daqueles que mais amamos.

Outras vezes até empreendemos esforços, mas tudo envolto em muito sofrimento e até achando que somos heróis incompreendidos e vítimas de um processo indescritível.

Parafraseando Jesus podemos dizer, quando assim se der, ainda não é o fim[3]. Pois o nosso tem de ser um testemunho de alegria, este deve ser o sentimento da paixão, será esta senha de validação do término do processo.

Perguntado certa vez sobre qual seria o novo nome de Jesus se ele em carne voltasse a nós, nosso querido e sábio Chico Xavier deu uma simples resposta:

“- Alegria, se Jesus renascesse entre nós seu nome seria Alegria.”
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Claudio Fajardo de Castro   

[1] Lucas, 23: 28
[2] Mateus, 16: 24
[3] Mateus, 24: 6



MENSAGEM DO ESE:
A indulgência (II)


Sede indulgentes com as faltas alheias, quaisquer que elas sejam; não julgueis com severidade senão as vossas próprias ações e o Senhor usará de indulgência para convosco, como de indulgência houverdes usado para com os outros.
Sustentai os fortes: animai-os à perseverança. Fortalecei os fracos, mostrando-lhes a bondade de Deus, que leva em conta o menor arrependimento; mostrai a todos o anjo da penitência estendendo suas brancas asas sobre as faltas dos humanos e velando-as assim aos olhares daquele que não pode tolerar o que é impuro. Compreendei todos a misericórdia infinita de vosso Pai e não esqueçais nunca de lhe dizer, pelos pensamentos, mas, sobretudo, pelos atos: “Perdoai as nossas ofensas, como perdoamos aos que nos hão ofendido.” Compreendei bem o valor destas sublimes palavras, nas quais não somente a letra é admirável, mas principalmente o ensino que ela veste.
Que é o que pedis ao Senhor, quando implorais para vós o seu perdão? Será unicamente o olvido das vossas ofensas? Olvido que vos deixaria no nada, porquanto, se Deus se limitasse a esquecer as vossas faltas, Ele não puniria, é exato, mas tampouco recompensaria. A recompensa não pode constituir prêmio do bem que não foi feito, nem, ainda menos, do mal que se haja praticado, embora esse mal fosse esquecido. Pedindo-lhe que perdoe os vossos desvios, o que lhe pedis é o favor de suas graças, para não reincidirdes neles, é a força de que necessitais para enveredar por outras sendas, as da submissão e do amor, nas quais podereis juntar ao arrependimento a reparação.
Quando perdoardes aos vossos irmãos, não vos contenteis com o estender o véu do esquecimento sobre suas faltas, porquanto, as mais das vezes, muito transparente é esse véu para os olhares vossos. Levai-lhes simultaneamente, com o perdão, o amor; fazei por eles o que pediríeis fizesse o vosso Pai celestial por vós. Substitui a cólera que conspurca, pelo amor que purifica. Pregai, exemplificando, essa caridade ativa, infatigável, que Jesus vos ensinou; pregai-a, como ele o fez durante todo o tempo em que esteve na Terra, visível aos olhos corporais e como ainda a prega incessantemente, desde que se tornou visível tão-somente aos olhos do Espírito. Segui esse modelo divino; caminhai em suas pegadas; elas vos conduzirão ao refúgio onde encontrareis o repouso após a luta. Como ele, carregai todos vós as vossas cruzes e subi penosamente, mas com coragem, o vosso calvário, em cujo cimo está a glorificação. — João, bispo de Bordéus. (1862.)



(Fonte: O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. X, item 17.)


quinta-feira, 18 de abril de 2019

REVELAÇÕES DO MUNDO ESPIRITUAL


Almejarias obter:

Orientações definitivas do Mundo Espiritual aos teus íntimos anseios...

Palavras diretas que decidissem por ti o melhor a ser feito...

Soluções prontas para determinados problemas que, desde muito, te afligem a cabeça...

Respostas abrangentes sobre as quais não pairassem mais qualquer dúvida em torno da Verdade...

Diretrizes claras que te substituíssem o esforço de procurá-las por ti mesmo...

Páginas incontestes de esclarecimento que não te deixassem inseguro em relação ao rumo que deves imprimir à própria vida...

Manifestações retumbantes que impusessem silêncio aos incrédulos e irônicos...

Todavia, se o Mundo Espiritual que te rodeia não te atende os desejos de fornecer todas as revelações que esperas te sejam feitas, é porque ele não as possui para dar ou, simplesmente, ainda não mereceste recebê-las.
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Irmão José (psic. Carlos Baccelli - do livro "Ajuda-te e o Céu te Ajudará") 




MENSAGEM DO ESE:

Dever-se-á pôr termo às provas do próximo?

– Deve alguém pôr termo às provas do seu próximo quando o possa, ou deve, para respeitar os desígnios de Deus, deixar que sigam seu curso? 

Já vos temos dito e repetido muitíssimas vezes que estais nessa Terra de expiação para concluirdes as vossas provas e que tudo que vos sucede é conseqüência das vossas existências anteriores, são os juros da dívida que tendes de pagar. Esse pensamento, porém, provoca em certas pessoas reflexões que devem ser combatidas, devido aos funestos efeitos que poderiam determinar.

Pensam alguns que, estando-se na Terra para expiar, cumpre que as provas sigam seu curso. Outros há, mesmo, que vão até ao ponto de julgar que, não só nada devem fazer para as atenuar, mas que, ao contrário, devem contribuir para que elas sejam mais proveitosas, tornando-as mais vivas. Grande erro. É certo que as vossas provas têm de seguir o curso que lhes traçou Deus; dar-se-á, porém, conheçais esse curso? Sabeis até onde têm elas de ir e se o vosso Pai misericordioso não terá dito ao sofrimento de tal ou tal dos vossos irmãos: “Não irás mais longe?” Sabeis se a Providência não vos escolheu, não como instrumento de suplício para agravar os sofrimentos do culpado, mas como o bálsamo da consolação para fazer cicatrizar as chagas que a sua justiça abrira? Não digais, pois, quando virdes atingido um dos vossos irmãos: “É a justiça de Deus, importa que siga o seu curso.” 

Dizei antes: “Vejamos que meios o Pai misericordioso me pôs ao alcance para suavizar o sofrimento do meu irmão. Vejamos se as minhas consolações morais, o meu amparo material ou meus conselhos poderão ajudá-lo a vencer essa prova com mais energia, paciência e resignação. Vejamos mesmo se Deus não me pôs nas mãos os meios de fazer que cesse esse sofrimento; se não me deu a mim, também como prova, como expiação talvez, deter o mal e substituí-lo pela paz.” 

Ajudai-vos, pois, sempre, mutuamente, nas vossas respectivas provações e nunca vos considereis instrumentos de tortura. Contra essa idéia deve revoltar-se todo homem de coração, principalmente todo espírita, porquanto este, melhor do que qualquer outro, deve compreender a extensão infinita da bondade de Deus. Deve o espírita estar compenetrado de que a sua vida toda tem de ser um ato de amor e de devotamento; que faça ele o que fizer para se opor às decisões do Senhor, estas se cumprirão. Pode, portanto, sem receio, empregar todos os esforços por atenuar o amargor da expiação, certo, porém, de que só a Deus cabe detê-la ou prolongá-la, conforme julgar conveniente.

Não haveria imenso orgulho, da parte do homem, em se considerar no direito de, por assim dizer, revirar a arma dentro da ferida? De aumentar a dose do veneno nas vísceras daquele que está sofrendo, sob o pretexto de que tal é a sua expiação? Oh! considerai-vos sempre como instrumento para fazê-la cessar. Resumindo: todos estais na Terra para expiar; mas, todos, sem exceção, deveis esforçar-vos por abrandar a expiação dos vossos semelhantes, de acordo com a lei de amor e caridade. 
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— Bernardino, Espírito protetor. (Bordéus, 1863.)

(Fonte: O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V, item 27.)