A sobra em todas as situações é o agente aferidor do nosso ajustamento à Lei Eterna que estatui sejam os recursos do Criador divididos justificadamente por todas as criaturas, a começar pela bênção vivificante do Sol.
É assim que o leite a desperdiçar-se, na mesa, é a migalha de alimento que sonegas à criancinha órfã de pão, tanto quanto a roupa a emalar-se, desnecessária, no recanto doméstico, é o agasalho que deves à nudez que a noite fria vergasta.
Por isso mesmo, é pelo supérfluo acumulado em vão que começam todos os nossos desacertos perante a Bênção Divina.
Formações miasmáticas invadem-te o lar pelos frutos apodrecidos que recusas à fome dos semelhantes; prolifera a traça na moradia, pelo vestuário que segregas a distância de quem sofre a intempérie; multiplicam-se víboras e espinheiros na gleba que guardas, inútil; arma-te a inveja ciladas soezes, ao pé de patrimônios materiais que reténs, sem qualquer benefício para a necessidade dos outros, e, sobretudo, os expoentes da criminalidade e do vício senhoreiam-te a vida, nas horas vagas em que te refestelas nos braços da ilusão, exaltando a leviandade e a preguiça.
Não olvides, assim, que toda sobra desaproveitada nos bens que desfrutas, por efeito de empréstimo da Providência Maior, se converte em cadeia de retaguarda, situando-te pensamentos e aspirações na cidadela da sombra. E, repartindo com o próximo as vantagens que te enriquecem os dias, seguirás, desde a Terra, pelos investimentos do amor puro e incessante, em direitura à Plenitude Celestial. ***********************
Emmanuel
Chico Xavier
Obra: A religião dos Espíritos
MENSAGEM DO ESE:
A indulgência (II)
Sede
indulgentes com as faltas alheias, quaisquer que elas sejam; não
julgueis com severidade senão as vossas próprias ações e o Senhor usará
de indulgência para convosco, como de indulgência houverdes usado para
com os outros.
Sustentai os fortes: animai-os à perseverança.
Fortalecei os fracos, mostrando-lhes a bondade de Deus, que leva em
conta o menor arrependimento; mostrai a todos o anjo da penitência
estendendo suas brancas asas sobre as faltas dos humanos e velando-as
assim aos olhares daquele que não pode tolerar o que é impuro.
Compreendei todos a misericórdia infinita de vosso Pai e não esqueçais
nunca de lhe dizer, pelos pensamentos, mas, sobretudo, pelos atos:
“Perdoai as nossas ofensas, como perdoamos aos que nos hão ofendido.”
Compreendei bem o valor destas sublimes palavras, nas quais não somente a
letra é admirável, mas principalmente o ensino que ela veste.
Que é o
que pedis ao Senhor, quando implorais para vós o seu perdão? Será
unicamente o olvido das vossas ofensas? Olvido que vos deixaria no nada,
porquanto, se Deus se limitasse a esquecer as vossas faltas, Ele não
puniria, é exato, mas tampouco recompensaria. A recompensa não pode
constituir prêmio do bem que não foi feito, nem, ainda menos, do mal que
se haja praticado, embora esse mal fosse esquecido. Pedindo-lhe que
perdoe os vossos desvios, o que lhe pedis é o favor de suas graças, para
não reincidirdes neles, é a força de que necessitais para enveredar por
outras sendas, as da submissão e do amor, nas quais podereis juntar ao
arrependimento a reparação.
Quando perdoardes aos vossos irmãos, não
vos contenteis com o estender o véu do esquecimento sobre suas faltas,
porquanto, as mais das vezes, muito transparente é esse véu para os
olhares vossos. Levai-lhes simultaneamente, com o perdão, o amor; fazei
por eles o que pediríeis fizesse o vosso Pai celestial por vós.
Substitui a cólera que conspurca, pelo amor que purifica. Pregai,
exemplificando, essa caridade ativa, infatigável, que Jesus vos ensinou;
pregai-a, como ele o fez durante todo o tempo em que esteve na Terra,
visível aos olhos corporais e como ainda a prega incessantemente, desde
que se tornou visível tão-somente aos olhos do Espírito. Segui esse
modelo divino; caminhai em suas pegadas; elas vos conduzirão ao refúgio
onde encontrareis o repouso após a luta. Como ele, carregai todos vós as
vossas cruzes e subi penosamente, mas com coragem, o vosso calvário, em
cujo cimo está a glorificação. — João, bispo de Bordéus. (1862.)
(Fonte: O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. X, item 17.)