terça-feira, 11 de julho de 2017

A herança





  Na mesa do vasto aposento que penetráramos, em serviço de assistência espiritual, jazia grafada em belo cursivo a interessante carta que passamos a transcrever:

  Meu caro Belmiro:

Parece incrível, mas somente hoje consigo tempo para responder-lhe à carta, recebida há precisamente oito meses. Perdoe-me a demora.

  Realmente, o velho morreu, no ano passado; entretanto, apenas agora pude liquidar o inventário.

  Confirmo a notícia da herança. O montante em dinheiro que me veio ao domínio é de cento e oitenta milhões, mas, automaticamente, sou hoje o dono de oito prédios, no valor aproximado de quinhentos milhões de cruzeiros velhos. Isso tudo, somado às joias que me ficaram, ultrapassa a quantia de oitocentos mil cruzeiros novos ou quase um bilhão na moeda antiga. E agora, meu caro, é tocar para a frente.

  Espero multiplicar o patrimônio quatro vezes, em dois anos. Esteja certo disso.

  Sinto muito não atender à sua recomendação. Você insiste comigo, há muito tempo, tanto quanto insistiu com o falecido, em assuntos de caridade. Não fôssemos companheiros de infância e não daria atenção ao caso; no entanto, estimo você suficientemente para deixá-lo sem resposta.

  Aprendi com o velho que a vida vale pelo dinheiro que se tem. Você fala em benefícios aos outros, para que venhamos a ser beneficiados, e afirma que, se dermos em bondade e desprendimento aos que sofrem na vida, a vida nos retribuirá em saúde e alegria. Não sei onde é que você encontrou tanta teoria bonita para se enfeitar.

  Espiritismo, reencarnação… Você, Belmiro, é um poeta. Sempre admirei a sua imaginação. Desde a escola, você é assim — o notável sonhador que a gente aplaude, mas não pode seguir.

 O que sei de mim é que nada compreendo sem o dinheiro. E dinheiro grande. Acompanhei meu avô, prestando-lhe assistência, durante a minha vida inteira, e não será agora que vou perder o fruto de meu esforço. Não desfalcarei o que tenho e, para defender o que tenho, não estou disposto a ceder um tostão. Você não é o primeiro amigo a falar-me de beneficência, de missão a cumprir, de solidariedade humana, de mensagens do Além… Acho isso tudo muito bonito, mas para mim não calha.   Estive trinta anos — pense na extensão desse tempo — trinta anos protegendo o velho e ajudando-o a preservar o que, no fundo, agora é meu. Acredita que estou relaxado, a ponto de esquecer-me? Não me venha com a história de que meu avô teria falado depois da morte para aconselhar-me. Ele, meu mestre de poupança, não quereria fazer de mim um mão aberta. Essas conversas de Espíritos, meu caro, têm muito de trapaça e bobagem… Os velhacos inventam as modas e os tolos vão seguindo. Se o vovô quiser dar ordens, que me apareça. Não tenho medo de fantasmas.

  Quanto à saúde, estou forte. Ainda não completei cinquenta anos e somente agora obtive a possibilidade de viver como quero. Estou eufórico, feliz. Nunca pratiquei tanta ginástica e com tanto gosto.

  Você me convida a pensar no outro mundo… E eu convido a você para mergulhar comigo nos prazeres deste mundo mesmo.

  Venha para conversarmos e receba um abraço muito cordial do seu velho amigo, sempre devedor,
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Neneco

  Esta era a carta escrita e assinada pelo cavalheiro simpático que fôramos chamados a prestar auxílio espiritual e cujo corpo acabava de se cadaverizar por força de violento enfarte do miocárdio. E a nota mais significativa de todo o episódio é que ele, ao arrancar-se do veículo prostrado, em nossa direção, tomou-nos à conta de enfermeiros encarnados e, tropeçando semilúcido, informou-nos para logo, de que, se estava doente, não queria seguir para o hospital sem o talão de cheques.
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Irmão X
 
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MENSAGEM DO ESE:
Missão dos espíritas (II)

A fé é a virtude que desloca montanhas, disse Jesus. Todavia, mais pesados do que as maiores montanhas, jazem depositados nos corações dos homens a impureza e todos os vícios que derivam da impureza. Parti, então, cheios de coragem, para removerdes essa montanha de iniqüidades que as futuras gerações só deverão conhecer como lenda, do mesmo modo que vós, que só muito imperfeitamente conheceis os tempos que antecederam a civilização pagã.
Sim, em todos os pontos do Globo vão produzir-se as subversões morais e filosóficas; aproxima-se a hora em que a luz divina se espargirá sobre os dois mundos.
Ide, pois, e levai a palavra divina: aos grandes que a desprezarão, aos eruditos que exigirão provas, aos pequenos e simples que a aceitarão; porque, principalmente entre os mártires do trabalho, desta provação terrena, encontrareis fervor e fé. Ide; estes receberão, com hinos de gratidão e louvores a Deus, a santa consolação que lhes levareis, e baixarão a fronte, rendendo-lhe graças pelas aflições que a Terra lhes destina.
Arme-se a vossa falange de decisão e coragem! Mãos à obra! o arado está pronto; a terra espera; arai! Ide e agradecei a Deus a gloriosa tarefa que Ele vos confiou; mas, atenção! entre os chamados para o Espiritismo muitos se transviaram; reparai, pois, vosso caminho e segui a verdade.
Pergunta. — Se, entre os chamados para o Espiritismo, muitos se transviaram, quais os sinais pelos quais reconheceremos os que se acham no bom caminho? Resposta. — Reconhecê-los-eis pelos princípios da verdadeira caridade que eles ensinarão e praticarão. Reconhecê-los-eis pelo número de aflitos a que levem consolo; reconhecê-los-eis pelo seu amor ao próximo, pela sua abnegação, pelo seu desinteresse pessoal; reconhecê-los-eis, finalmente, pelo triunfo de seus princípios, porque Deus quer o triunfo de Sua lei; os que seguem Sua lei, esses são os escolhidos e Ele lhes dará a vitória; mas Ele destruirá aqueles que falseiam o espírito dessa lei e fazem dela degrau para contentar sua vaidade e sua ambição. — Erasto, anjo da guarda do médium. (Paris, 1863.)
 
(Fonte: O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XX, item 4.)
 

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