quarta-feira, 17 de maio de 2017

A Escolha do representante


Thomas Forster, o médium principal da instituição espírita em Washington, era um veterano exigente.

Desejava enviar um representante do grupo a certo movimento de estudos doutrinários a realizar-se em Chicago, mas não queria fazê-lo sem minuciosa seleção.

– Quero um elemento puro, absolutamente puro, um cristão perfeito, se pudermos classificá-lo assim – dizia, agitando o dedo em riste, lembrando batuta em mãos de maestro nervoso.
– Mas você – falava Boland, o companheiro mais íntimo – não pode pedir o impossível. Os espíritas são homens e mulheres fazendo força na própria melhoria moral. Procuraremos um companheiro de hábitos simples, mas sem a preocupação de santidade.
Forster ria amarelo, mas não dava braços a torcer.
– Pode ser exigência minha, mas não mandaremos companheiro algum dos que eu conheça.

E num rasgo de rigorismo:

– Nem mesmo eu me considero apto. Lido com muitos negócios materiais e quero que a nossa casa se represente em Chicago por um espírita-cristão completo. Humilde, alfabetizado, amante dos sofredores e absolutamente arredado de todas as ilusões da Terra…
– Muito difícil – observava Boland, sorrindo -, onde encontrar essa ave rara, se estamos longe do Céu?

Forster lembrou que, durante quatro domingos consecutivos, enquanto pregava o Evangelho vira na última fila um homem de aspecto simpático, que não conhecia. Trajava-se com simplicidade, sem ser relaxado, mostrava olhar sereno, tipo evidentemente ponderado e esquivo a qualquer conversação ociosa.

Após ligeiro comentário, concluiu:

– Parece-me o homem ideal; se for um espírita de convicção, pelos modos que demonstra, será o representante adequado…

Combinaram, assim, ouvi-lo na próxima sessão domingueira.
No dia aprazado, lá estava o assistente desconhecido.
Enquanto Forster falava, Boland aproximou-se dele e pediu-lhe alguns minutos de atenção para depois.
E, finda a preleção, os dois amigos abeiraram-se dele.
À primeira indagação que lhe foi atirada, respondeu, calmo:

– Sim, estou fazendo o que posso para ser espírita.

Forster continuou perguntando e ele prosseguiu respondendo:

– O irmão tem vida mundana ativa?
– Quem sou eu, meu amigo? Ando em luta contínua…
– Mas dedica-se aos sofredores?
– Tenho a vida entre os que choram.
– Escolheu, assim, o caminho da caridade cristã?
– Como não, meu amigo? Ouvir aflições e estar com os necessitados de conforto é meu simples dever…
– E ajuda a todos, em sua noção de serviço social?
– Devo servir a todos… ricos e pobres, justos e injustos, moços e velhos. Não posso fazer distinção.
Encantado, o velho Thomas inquiriu, ainda:
– E o irmão procede assim espontaneamente?

O desconhecido sorriu e acentuou:

– Ah! Até certo ponto… Se eu pudesse cultivaria minhas festas e me afastaria, pelo menos um pouco, de tantos sofrimentos e tantas lágrimas!…

Foi então que Forster veio a saber que o homem trabalhava no antigo Fort Lincoln e desempenhava as funções de coveiro.
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Hilário Silva 
Waldo Vieira   

terça-feira, 16 de maio de 2017

Procuremos o Bem

 
Procura o Bem, acima de tudo, para que te não falte luz ao caminho.

  Todo mal é sombra e toda sombra obscurece.

  A roseira espinhosa produz essências raras.

  A pedra contundente garante a base firme.

  Os detritos do solo são adubos que se fazem ingredientes do pão.

  O remédio amargo, muitas vezes, é o grande fator da cura.

  Caminha buscando o melhor para que o melhor te favoreça.

  Por enquanto não existem na Terra santos e heróis sem defeitos, como não existem pecadores e réus sem virtudes.

  Basta que invoques a bondade dos outros, usando a bondade que te é própria, para que a bondade se faça sentir onde estiveres.

  Não te detenhas na censura ou na dissensão.

  O vinagre da crítica conserva os pomos envenenados da discórdia e o atrito inútil é perda irreparável do tempo.

  Vale-te do companheiro de ideal e trabalho, no nível de compreensão em que te possa ajudar.

  Não exijas flores do pedregulho, nem reclames uvas do espinheiro, mas ajuda-os, quanto possas, com os recursos que a vida te oferta para que os teus dias não se façam poeira e desilusão.

  Segue auxiliando e auxilia amando sempre.

  O amor é a chave milagrosa que, talhada no ouro da humildade e da renúncia, pode abrir, em teu benefício, todas as portas, pela conjugação do verbo servir.

 E, servindo com Jesus, compreender-lhe-ás os excelsos objetivos.

  “Eu não vim destruir a lei” — disse-nos o Senhor. (Mt)

  E, ouvindo-lhe a advertência, não precisaremos arrasar ou ferir, mas cooperar, incessantemente, para que a vida possa reconstruir a si mesma, em perene ressurreição.
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Emmanuel 
Chico Xavier 




segunda-feira, 15 de maio de 2017

Cuide do que é seu!




Picolino andava triste. Sua cantina, que servia as melhores cenouras da cidade, não andava nada bem.

E aquele coelho, que sempre fora tão esperto, agora reclamava:

- Não consigo entender. A minha cantina vivia lotada, e agora... nada!

Preocupado, Picolino foi procurar um conselheiro.

Seu Sabichão, pato danado de inteligente, depois de ouvir Picolino com atenção, pegou um pedaço de papel, escreveu algumas palavras, dobrou-o bem dobradinho, colocou-o em um saquinho e entregou-o a Picolino, dizendo-lhe:

- Percorra a sua cantina três vezes ao dia, durante um mês, segurando esse saquinho.

Cheio de esperança, Picolino traçou uma rotina: de manhã iria à horta, de tarde visitaria a cozinha e de noite iria ao salão. E assim fez.

Na horta, encontrou a plantação descuidada, enquanto o coelho contratado para cuidar dela tirava uma soneca. Picolino acordou o dorminhoco e pediu-lhe que cuidasse das cenouras.

Na cozinha, viu que a cozinheira desperdiçava alimentos. Com jeitinho, pediu-lhe que arrumasse tudo e, depois, ensinou-lhe a melhor forma de preparar os pratos da cantina.

No salão, viu os fregueses sendo mal atendidos e reclamando da demora... Atencioso, Picolino foi atendê-los pessoalmente para ensinar aos garçons como é que se fazia.

Todo santo dia fazia essa rotina com o saquinho na mão. Depois de um mês, que sucesso! A cantina parecia outra.

Feliz, Picolino foi encontrar-se com Seu Sabichão e perguntou-lhe se podia ficar com o saquinho, pois sua cantina estava indo tão bem que ele tinha medo de separar-se do amuleto.

Seu Sabichão, divertido, abriu o saquinho, pegou o papel e entregou-o a Picolino, dizendo-lhe:

- Se você não se esquecer do que está escrito nesse papel, esse amuleto será sempre seu.

Curioso, Picolino abriu o papel e leu: "Se quiser que as coisas melhorem, acompanhe-as constantemente."

Meio sem jeito, Picolino dobrou o papel, colocou-o no bolso, agradeceu a Seu Sabichão e nunca mais deixou de acompanhar pessoalmente os trabalhos na sua cantina.
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Parábolas do Mundo Inteiro
Para Jovens e Crianças
Dr. Lair Ribeiro - Editora Leitura 


sexta-feira, 12 de maio de 2017

Na Senda Escabrosa



“Nunca te deixarei, nem te desampararei.” Paulo (Hebreus, 13:5)
A palavra do Senhor não se reporta somente à sustentação da vida física, na subida pedregosa da ascensão.

Muito mais que de pão do corpo, necessitamos de pão do espírito.

Se as células do campo fisiológico sofrem fome e reclamam a sopa comum, as necessidades e desejos, impulsos e emoções da alma provocam, por vezes, aflições desmedidas, exigindo mais ampla alimentação espiritual.

Há momentos de profunda exaustão, em nossas reservas mais íntimas.

As energias parecem esgotadas e as esperanças se retraem apáticas.

Instala­-se a sombra, dentro de nós, como se espessa noite nos envolvesse.

E qual acontece à Natureza, sob o manto noturno, embora guardemos fontes de entendimento e flores de boa ­vontade, na vasta extensão do nosso país interior, tudo permanece velado pelo nevoeiro de nossas inquietações.

O Todo­-Misericordioso, contudo, ainda aí, não nos deixa completamente relegados à treva de nossas indecisões e desapontamentos. Assim como faz brilhar as estrelas fulgurantes no alto, desvelando os caminhos constelados do firmamento ao viajor perdido no mundo, acende, no céu de nossos ideais, convicções novas e aspirações mais elevadas, a fim de que nosso espírito não se perca na viagem para a vida superior.

"Nunca te deixarei, nem te desampararei" – promete a Divina Bondade.

Nem solidão, nem abandono.

A Providência Celestial prossegue velando.

Mantenhamos, pois, a confortadora certeza de que toda tempestade é seguida pela atmosfera tranquila e de que não existe noite sem alvorecer.
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  Emmanuel
Chico Xavier 
Obra: Fonte Viva 


 

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Sonhos



O Espiritismo não podia deixar de interessar-se pelo problema dos sonhos, dando também, sobre eles, a sua interpretação. Não podia o Espiritismo fugir a esse imperativo, eis que as manifestações oníricas têm acentuada importância em nossa vida de relação, uma vez que os chamados «sonhos espíritas» resultam, via de regra, das nossas próprias disposições, exercidas e cultivadas no estado de vigília.

A Doutrina Espírita não pode estar ausente de qualquer movimento superior, de fundo espiritual, que vise a amparar o Espírito humano na sua rota evolutiva. Não é a Doutrina um movimento literário, circunscrito a gabinetes. É um programa para ajudar o homem a crescer para Deus, a fim de que, elevando-se, corresponda ao imenso sacrifício daquele que, sendo o Cristo de Deus, se fez Homem para que os homens se tornassem Cristos.

Os sonhos, em sua generalidade, não representam, como muitos pensam, uma fantasia das nossas almas, enquanto há o repouso do corpo físico. Todos eles revelam, em sua estrutura, como fundamento principal, a emancipação da alma, assinalando a sua atividade extracorpórea, quando então se lhe associam, à consciência livre, variadas impressões e sensações de ordem fisiológica e psicológica.

Estudemos o assunto, que se reveste de singular encanto, à luz do seguinte gráfico:

CLASSIFICAÇÃO DOS SONHOS =

{Comuns. = {Repercussão de nossas disposições, Físicas ou psicológicas.

{Reflexivos. = {Exteriorização de impulsos e imagens arquivadas no cérebro.

{Espíritas. = {Atividade real e efetiva do Espírito durante o sono.

Feita a classificação no seu tríplice aspecto, façamos, agora, a devida especificação:

1- Comuns: O Espírito é envolvido na onda de pensamentos que lhe são próprios, bem assim dos outros.

2- Reflexivos: A modificação vibratória, resultante do desprendimento pelo sono, faz o Espírito entrar em relação com fatos, imagens, paisagens e acontecimentos remotos, desta e de outras vidas.

3- Espíritas: Por «sonhos espíritas», situamos aqueles em que o Espírito se encontra, fora do corpo, com:
a) — parentes
b) — amigos
c) — instrutores
d) — inimigos, etc.

Outras denominações poderão, sem dúvida, ser-lhes dadas, o que, supomos, não alterará a essência do fenômeno em si mesmo. Estamos ainda no plano muito relativo das coisas. Assim sendo, tendo cada palavra o seu lugar e a sua propriedade, cabia-nos o imperativo da nomenclatura.

Geralmente temos sonhos imprecisos, desconexos, frequentemente interrompidos por cenas e paisagens inteiramente estranhas, sem o mais elementar sentido de ordem e sequência. Serão esses os sonhos comuns.

Aqueles em que o nosso Espírito, desligando-se parcialmente do corpo, se vê envolvido e dominado pela onda de imagens e pensamentos, seus e do mundo exterior, uma vez que vivemos num misterioso turbilhão das mais desencontradas ideias.

O mundo psíquico que nos cerca reflete as vibrações de bilhões de pessoas encarnadas e desencarnadas. Deixando o corpo em repouso, o Espírito ingressa no plano espiritual com apurada sensibilidade, facultando ao campo sensório o recolhimento, embarafustado, de desencontradas imagens antes não percebidas, em face das limitações impostas pelo cérebro físico.

Ao despertarmos, guardaremos imprecisa recordação de tudo, especialmente da ausência de conexão nos acontecimentos que, em forma de incompreensível sonho, povoaram a nossa vida mental. A esses sonhos chamaríamos sonhos comuns, por serem eles os mais frequentes.

Por reflexivos, categorizamos os sonhos em que a alma, abandonando o corpo físico, registra as impressões e imagens arquivadas no subconsciente e plasmadas na organização perispiritual.

Tal registro é possível de ser feito em virtude da modificação vibratória, que põe o Espírito em relação com fatos e paisagens remotos, desta e de outras existências. Ocorrências de séculos e milênios gravam-se indelevelmente em nossa memória, estratificando-se em camadas superpostas.

A modificação vibratória, determinada pela liberdade de que passa a gozar o Espírito, no sono, fá-lo entrar em relação com acontecimentos e cenas de eras distantes, vindos à tona em forma de sonho. A esses sonhos, na esquematização de nosso singelo estudo, daremos a denominação de «reflexivos», por refletirem eles, evidentemente, situações anteriormente vividas.

Cataloguemos, por último, os sonhos espíritas. Esses se revestem de maior interesse para nós, por atenderem com mais exatidão e justeza à finalidade deste livro, qual seja a de, sem fugir à feição evangélica, fazer com que todos os capítulos nos sejam um convite à reforma interior, como base para a nossa felicidade e meio para, em nome da fraternidade cristã, melhor servirmos ao próximo.

Nos sonhos espíritas a alma, desprendida do corpo, exerce atividade real e afetiva, facultando meios de encontrarmo-nos com parentes, amigos, instrutores e, também, com os nossos inimigos, desta e de outras vidas.

Quando os olhos se fecham, com a visitação do sono, o nosso Espírito parte em disparada, por influxo magnético, para os locais de sua preferência. O viciado procurará os outros. O religioso buscará um templo. O sacerdote do Bem irá ao encontro do sofrimento e da lágrima, para assisti-los fraternalmente.

Enquanto despertos, os imperativos da vida contingente nos conservam no trabalho, na execução dos deveres que nos são peculiares. Adormecendo, a coisa muda de figura. Desaparecem, como por encanto, as conveniências. A atividade extracorpórea passará a refletir, sem dissimulações ou constrangimentos, as nossas reais e efetivas inclinações, superiores ou inferiores.

Buscamos sempre, durante o sono, companheiros que se afinam conosco e com os ideais que nos são peculiares. Para quem cultive a irresponsabilidade e a invigilância, quase sempre os sonhos revelarão convívio pouco lisonjeiro, cabendo, todavia, aqui a ressalva doutrinária, exposta na caracterização dos sonhos reflexivos, de que, embora tendo no presente uma vida mais ou menos equilibrada, poderemos, logicamente, reviver cenas desagradáveis, que permanecem virtualmente gravadas em nosso molde perispiritual.

Quem exercite, abnegadamente, o gosto pelos problemas superiores, buscará durante o sono a companhia dos que lhe podem ajudar, proporcionando-lhe esclarecimento e instrução.

O tipo de vida que levarmos, durante o dia, determinará invariavelmente o tipo de sonhos que a noite nos ofertará, em resposta às nossas tendências.

As companhias diurnas serão, quase sempre, as companhias noturnas, fora do vaso físico. O esforço de evangelização das nossas vidas e a luta incessante pela modificação dos nossos costumes, objetivando a purificação dos nossos sentimentos, dar-nos-ão, sem dúvida, o prêmio de sonhos edificantes e maravilhosos, expressando trabalho e realização.

Com instrutores devotados nos encontraremos e deles ouviremos conselhos e reconforto. Dessas sombras amigas, que acompanham a migalha da nossa boa vontade, receberemos estímulo para as nossas sublimes esperanças.
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(EXTRAÍDO DO LIVRO “ESTUDANDO A MEDIUNIDADE” CAPÍTULO 17, DE MARTINS PERALVA.)